Faerie

Agosto 31, 2012

The realm of fairy-story is wide and deep and high and filled with many things: all manner of beasts and birds are found there; shoreless seas and stars uncounted; beauty that is an enchantment, and an ever-present evil; both joy and sorrow as sharp as swords.”

-J.R.R Tolkien, On Fairy-Stories

Um artigo esclarecedor sobre as ideias do mestre J.R.R. Tolkien quanto à importância das histórias do “Outro Mundo” a que o autor chama Faerie e à sua ligação com o “mundo real”.

As Tolkien’s encounter with the dragon suggests, at the heart of the realm of Faerie, and good fairy-stories, is fantasy, the “making or glimpsing of Other-worlds.” Exceeding the power of mere imagination, which is the innate human ability to form images of things not present, fantasy adds to these ideal creations an “inner consistency of reality.” […] Only when the terrain of Faerie is fractured by internal inconsistency does doubt arise; then the reader is “out in the Primary World again, looking at the little abortive Secondary World from the outside…the spell is broken.”

O artigo aborda o entendimento do autor destas histórias como portadoras de um tremendo valor social, contendo as histórias a capacidade de olhar para a realidade interior e exterior do homem e reflectir sobre fenómenos que não podiam ser estudados de outra forma. ‘Because the human art of making fantasy is essentially a sub-creative art, one that necessarily draws from the reality of the primary world.’

The godfather of modern fantasy, JRR Tolkien, wrote an essay in 1938 entitled On Fairy Stories to give as a lecture at St Andrew’s University. As the world rumbled towards global conflict, Tolkien turned inward, musing: “The association of children and fairy stories is an accident of our domestic history. Fairy stories have in the modern lettered world been relegated to the ‘nursery’, as shabby or old-fashioned furniture is relegated to the playroom, primarily because the adults do not want it, and do not mind if it is misused.”

 (excerto do artigo intitulado Adult content warning: beware fairy stories, por David Barnet, ‘The Guardian’, 13 OUT 2009)

[Fala de Angela Carter como «um dos poucos e felizes exemplos» de variações contemporâneas dos contos de fadas. Foi-lhe difícil encontrar outros autores?]

Se Angela Carter não é um caso único, pelo menos é raro. Ela tinha, como muitos autores contemporâneos, uma agenda específica, feminista e de esquerda. Por outro lado, foi alguém que estudou com muita minúcia o funcionamento dos contos nas tradições orais. Leu os contos do Capuchinho Vermelho e percebeu quais eram as suas engrenagens simbólicas, e que é característica das tradições orais assentarem num jogo de espelhos: as histórias funcionam com várias narrativas que se espelham entre si. A mensagem de Angela Carter surge quando lemos os vários textos que escreveu sobre o mesmo tema. Trouxe o Capuchinho Vermelho até aos tempos pós-modernos, feministas e pós-feministas, dando-lhe as torções necessárias para que o tema seja culturalmente relevante para leitores modernos, mas a través dos esquemas simbólicos de antanho.

[Essa relevância dos contos permanece nas sociedades contemporâneas?]

As pessoas das sociedades contemporâneas, como quaisquer outras, funcionam de acordo com esquemas simbólicos. A questão é: em que medida é que esses modelos simbólicos, específicos da cultura onde fomos educados, continuam a ser veiculados pelos contos? Já não é tanto pelos contos que se contavam há cem anos, mas por escritores raros como Angela Carter e sobretudo no domínio do audiovisual e da publicidade. O imaginário do Capuchinho Vermelho na sociedade contemporânea, por exemplo, é sempre altamente sexualizado – e porque é que isto seria assim, se o tema original não fosse já sexual?

(excerto de uma esclarecedora Entrevista publicada na LER de Novembro de 2011 com Francisco Vaz da Silva)

“Alguns contos de fadas ou populares evoluíram a partir de mitos; outros foram neles incorporados. Ambos encarnavam a experiência acumulada da sociedade de acordo com a maneira como os homens gostavam de recordar a sabedoria passada ou transmiti-la às futuras gerações. Estes contos proporcionam profundas intuições que auxiliam a humanidade através das longas vicissitudes da sua existência – herança essa que não é revelada às crianças por qualquer outra forma tão simples e directamente acessível como esta.”

– Bruno Bettelhem, Psicanálise dos Contos de Fadas

Qual é o lugar nos nossos dias para estes produtos de sabedoria passada, aperfeiçoados durante séculos ao formato mais eficaz de transmissão às novas gerações, com a finalidade de as preparar para as “longas vicissitudes da sua existência”? De que forma estão presentes estes códigos nas dinâmicas das sociedades modernas?

Para debater questões como esta, especialistas de todo o mundo juntaram-se no simpósio Grimm in Lisbon 2012 entre os dias 21 e 23 de Junho. Este evento é um exemplo do crescente espaço para reflexão sobre os contos de fadas hoje, e é de realçar o facto deste importante simpósio internacional se ter dado em Lisboa, organizado pelo Instituto de Estudos de Literatura Tradicional e por mérito de estudiosos portugueses de renome na área como Francisco Vaz da Silva.

O estudioso Francisco Vaz da Silva fala de alguns exemplos dos processos de construção simbólica que caracterizam as narrativas dos contos de fadas, e uma impressão do significado sociológico que está por trás de cada uma destas histórias: Vêr.
“A fantasia é a faculdade mais livre de todas; com o efeito, pode não ter em conta a viabilidade ou o funcionamento daquilo que pensou: Tem a liberdade de pensar qualquer coisa, mesmo a mais absurda, incrível ou impossível.”

“A cultura popular é uma contínua manifestação de fantasia, de criatividade e de invenção. Os valores objectivos desta actividade são acumulados naquilo a que se chama tradição, técnica ou artística, como se quiser, e estes valores são continuamente verificados por outros actos de fantasia e de criatividade e, portanto, substituídos quando se mostram ultrapassados. Assim, a tradição é a soma em contínua mutação dos valores objectivos úteis às pessoas. Repetir de um modo trivial um valor, sem fantasia, não significa continuar a tradição, mas travá-la, fazê-la morrer. A tradição é a soma dos valores objectivos da colectividade e esta deve renovar-se continuamente, se não quiser entrar em decadência.”

Toda a gente conhece as histórias da Bela Adormecida, da Branca de Neve ou da Gata Borralheira. Muitos no entanto, provavelmente, só as conhecem pelos filmes de Walt Disney. O que talvez pouca gente saiba é que essas e muitas outras histórias igualmente famosas foram publicadas, todas, há exatamente duzentos anos. Todas no mesmo livro.

Esse livro, dos Irmãos Grimm, chama-se «Contos da Infância e do Lar» e é, ainda hoje, a obra de língua alemã mais traduzida e editada em todo o mundo.

Agora, pela primeira vez, os contos de Grimm têm em Portugal uma edição completa. Ao todo são duzentas histórias e uma dezena de lendas religiosas infantis, acompanhadas pelas notas do livro original dos Irmãos Grimm. Uma edição que, tal como a original de há duzentos anos, se reparte por três volumes, de que acaba de sair o primeiro.

O método de Jacob e Wilhelm Grimm – há duzentos anos, no princípio do século XIX – marcou o início de um processo de recolha de contos tradicionais que viria a ser seguido por todo o mundo. Em Portugal, Adolfo Coelho e Teófilo Braga foram os primeiros a recolher histórias da tradição oral já no final do século XIX. A particularidade no caso dos Irmãos Grimm é que eles não só recolheram os contos como lhes deram o seu toque próprio.

(excerto de programa TSF,  «Contos da Infância e do Lar», dos Irmãos Grimm, 16 MAR 2012)

Cantos rodados

Julho 1, 2012

As palavras da autora Fryda Schulz de Mantovani, extraídas do prólogo do seu livro Leyendas Argentinas ilustram com interesse a ideia de contos populares como expressão cultural global:

“La mejor definición de las leyendas y cuentos populares es la que a dado ese mexicano – y americano universal – que es Alfonso Reyes, cuando los llama cantos rodados: todo ello, viene a decirnos, es ‘un producto literario que ha pasado por el tamiz de muchos pueblos y se ha alterado un poco en todas las bocas y en todas las memorias’. Canto rodado es una piedrecita recogida en la playa, (…) proveniente de extinguidos volcans en el fondo del mar. El eterno arrollar de las olas le ha limado las aristas, que ahora son suaves, redondeadas: nadie podría distinguir el tajo o desprendimiento que la separó de una piedra mayor. En verdad, no encaja en nada: no es un rompecabezas que ayude a reconstruir el mundo, o mejor dicho, un lugar particular del mundo y de las gentes que lo habitan. Para quienes juran por los nacionalismos las leyendas y cuentos del pueblo sirven por ahí no más… Todo pertenece a todos. 

(…)

El mundo es viejo, y siempre cuenta las misma cosas con diferentes palabras: la gracia consiste precisamente en contarías de modo que atraigan la atención. Eso es el arte. Shakespeare puso en escena cosas que muchos sabían en otros pueblos. Que sabían o fantaseaban; porque Andersen hizo otro tanto, solo que sobrecargó el lado de la imaginación. Perrault se divirtió en bordas leyendas e cuentos aldeanos; no así los hermanos Grimm, que, como muy veraces que eran, transcribieron las diferentes versiones que encontraban a su paso sin anadirles ni quitarles una coma. En este libro (…) yo he procurado juntar leyendas e consejos populares. No inventé sino la forma de contarios. Y con eso dejo dicho que no me pertenece el nudo de la ficción, que es anónima, sino las palabras, que son mías y empapadas de la lengua oral que es de mi pueblo.”

> Histórias são universais ao transcender divisões culturais, linguísticas e etárias. Diversas e até antagónicas comunidades chegam a compreender-se e a respeitar-se por ouvir as histórias de outras, e por essa razão as histórias são uma ferramenta essencial para a paz.

> Histórias não podem errar. Ao contrário das construções geradas a partir de procedimentos lógicos ou científicos que podem ser rejeitados por refutação, as construções narrativas podem apenas atingir verosimilidade. A narrativa é, então, uma versão da realidade cuja aceitação depende de convenções e não de verificação empírica ou de requisitos lógicos. Mesmo quando o leitor encara a história de uma forma crítica, normalmente encara o conteúdo da narrativa como emanante de um narrador omnisciente e não à comunicação directa de um contador o que ajuda a que o contacto entre estas duas entidades não sofra o ruído de uma qualquer ideia formada do primeiro sobre o segundo.

> Histórias espelham o pensamento humano uma vez que o homem pensa em estruturas narrativas e normalmente se recorda dos factos sob a forma de uma história. A narrativa é essencial para a educação: a neurociência está a demonstrar que o cérebro humano organiza, retém, e acessa informação mais eficazmente sob a forma narrativa. Ouvir histórias é essencial para o desenvolvimento da imaginação humana, criatividade e processos de pensamento abstracto. Uma narrativa pode ser vista não só como forma de criar enredos humanos mas também como forma de providenciar um guia para usar a mente, já que o uso da mente é guiado pelo uso de uma linguagem que o permita.

> As histórias transmitem conhecimento num contexto social. A aprendizagem é mais eficaz quando ocorre em ambientes sociais que oferecem autênticas pistas sobre como o conhecimento deve ser aplicado. Porque as histórias expressam, ensinam, e preservam valores e crenças, são de importância primária para todos os indivíduos e comunidades às quais pertencem. As histórias oferecem à comunidade o comum conhecimento histórico e a visão partilhada necessária para inspirar a acção colectiva.

> Histórias são ferramentas comunicativas eficazes porque são meios para partilhar e interpretar experiências. Os ouvintes estão envolvidos e como tal são capazes de imaginar novas perspectivas, convidando a uma experiência empática e transformadora. Muitas vezes não é só o ouvinte que aprende, mas também o contador que, ao contar, se torna consciente da sua própria experiência e backgound únicos. Juntos, um contador e um ouvinte podem procurar novas práticas e inventar novas soluções. O processo de contar historias tem poder quando o contador converge eficazmente ideias e com prática é capaz de demonstrar o potencial do feito humano.

(fonte: Jerome Bruner: The Narrative Construction of Reality)

Tipos e Motivos

Abril 17, 2012

Uma ideia elementar no estudo dos contos de fadas é a de que estes são essencialmente variantes de construções – tipos – mais ou menos complexas de partes/ elementos – motivos – como personagens ou episódios. As variantes de histórias consistem sobretudo na alteração de motivos, omitindo, substituindo ou acrescentando alguns para criar novas composições. O trabalho dos irmãos Grimm concentrou-se na recolha mais diversificada possível de todas as variantes conhecidas. Para esse fim, os irmãos construíram em alguns casos as suas próprias variantes, de forma a apresentar todos os motivos sem recorrer a repetições de histórias demasiado similares.
Os diferentes tipos e motivos de contos foram exaustivamente catalogados em grandes volumes publicados pelos estudiosos da matéria a partir do séc. XIV. Antologias internacionais de contos populares, nomeadamente a colecção Contos Maravilhosos Europeus de Francisco Vaz da Silva (2011), revelam que os contos populares de um país como Portugal são na verdade variantes de contos partilhados numa cultura folk comum a povos de todo o mundo, cada um desses povos contendo as suas próprias versões desses mesmos contos.
Vêr: entrevista a Francisco Vaz da Silva